Ramos de Cultura

Por que a Beleza Importa – tudo é arte e nada é arte? (Parte 7 – Final)

(Cont) Roger Scrutton

E sobre as coisas que não são trágicas, mas apenas sórdidas ou depravadas, Pode a arte encontrar beleza nelas? Esta pintura de Delacroix, nos mostra a cama do artista, em toda a sua sórdida desordem. Ele imprime beleza em algo que não a possui e transmite um tipo de bênção em seu próprio caos emocional. Delacroix diz: “Veja como estes lençóis relembram os pesadelos e a energia atormentada da pessoa que estava nela e como as luzes capturam isto, como se ainda estivessem animadas pelo dormente” A cama é transformada pelo ato criativo e se transforma em um vívido símbolo da condição humana, que estabelece uma ligação entre nós e o artista.

Delacroix

Delacroix

Algumas pessoas descrevem a obra “My Bed”, de Tracey Emin neste sentido. Porém existe toda diferença no mundo entre uma verdadeira obra de arte, que transforma o feio em belo, e a falsa obra de arte que apenas divide a feiura que mostra. Esta é a vida moderna, representada em toda a sua aleatoriedade e desordem.

My Bed - Tracey Emin

My bed – Tracey Emin

– O que faz disto uma obra de arte em vez de uma cama desarrumada?
– Antes de tudo, é porque eu digo que que é uma obra de arte.
– Você diz?
– Eu digo que é…
– Esta é sua opinião
– E o que você quer que o expectador veja?
espera que eles digam:
“Eu acho que isso é belo!”
– Não! Não, não é isso que espero!
– Você pensa que é belo?
– Sim sim, penso que é bonito senão não teria exposto.

Tracey Emin a direita

Tracey Emin a direita

Como poderia ser isto uma bela obra de arte, se não pretende transformar a matéria prima em uma idéia ? É apenas mais uma realidade sórdida entre outras, literalmente, uma cama desarrumada. Voltamos à questão levantada pelo « Urinol (Mictório) » de Duchamp: qualquer coisa pode ser arte?

Esta questão preocupa tanto os inovadores quanto os tradicionalistas, como Alexander Stoddart, um escultor monumental cujos trabalhos são mundialmente vistos, inclusive na galeria da Rainha, no palácio de Buckingham.
– Um defensor da arte conceitual pode dizer que mesmo uma idéia pode ser bela logo pode-se dizer não há nada de errado com este tipo de arte?
– Sim, mas isto é um aforisma no campo de aplicação.

Alexander Stoddart e Roger Scrutton

Alexander Stoddart e Roger Scrutton

-O advogado pode ter uma idéia bela, o político, o médico. “Vamos curar o câncer”: uma idéia bela. Mas ele não diz que é um artista por isso. A arte conceitual, claro, é totalmente limitada. É de fato um tipo de arte que é esgotada em sua descrição verbal. Então, você precisa apenas ver meia vaca em um barril de formol, que você já está na metade do caminho. O objetivo mesmo então pode ser descartado. A cama de Tracey Emin é um exemplo perfeito disso: se você estivesse cansado andando pela galeria, subisse um degrau e visse aquela cama lá, você deitaria nela. Mas, é claro, se você visse apenas o torso do Apolo de Beldevere naquele mesmo lugar você seria atraído, e iria mesmo subir e tentar decifrá-lo. Muitos estudantes vêm até mim de departamentos de escultura, secretamente claro, pois eles não querem dizer aos tutores que vieram falar com o inimigo E eles dizem: “Eu tentei esculpir um modelo, uma figura. Eu o modelava e então um tutor veio e me disse para cortar ao meio e derramar alguns excrementos sobre ele, que isso iria torná -lo “interessante”.

Torso - Apolo Belverde

Torso – Apolo Belverde

– É o que eu sinto sobre o tipo de “profanação padronizada” que passa por arte hoje em dia: que é um tipo de imoralidade.
– Sim!
– pois é uma tentativa de apagar o significado da forma humana de algum jeito.
– É uma tentativa de apagar o conhecimento.

Trabalhos do Alexander Stoddart

Trabalhos do Alexander Stoddart

Os paradigmas da arte viraram as costas ao antigo currículo que coloca a beleza e o engenho como prioridades. Aqueles como Alexander Stoddart, que tentam restaurar a antiga conexão conexão entre o belo e o sagrado, são visto como antiquados e absurdos. O mesmo tipo de crítica ocorre com os arquitetos tradicionalistas. Um dos alvos é Leon Krier, arquiteto da moderna cidade do príncipe Charles, Poundbury. Projetando modestas ruas, inspiradas nos moldes tradicionais, usando os padrões e tão queridos detalhes que nos serviram por séculos, Leon Krier criou uma genuína cidade. As proporções são proporções humanas, os detalhes são confortantes aos olhos. Esta não é uma grande ou original arquitetura, nem tenta ser. É uma modesta tentativa de colocar as coisas no lugar, seguindo padrões e exemplos baseados na tradição. Isto não é nostalgia, mas conhecimento, que foi passado através do tempo.

Poundbury - Leon Krier

Poundbury – Leon Krier

A arquitetura que não respeita o passado, não está respeitando o presente, pois não está respeitando as necessidades básicas das pessoas, que é a de construir um lar duradouro. Tenho mostrado algumas das maneiras pelas quais os artistas e arquitetos seguiram o chamado da beleza. E fazendo, deram significado ao mundo. Os mestres do passado, reconheceram que temos necessidades espirituais assim como desejos animais. Para Platão, a beleza era um caminho para Deus enquanto pensadores do Iluminismo viram a arte e a beleza, como formas de nos salvarmos do vazio da rotina e alcançarmos um nível superior.

Êxtase de Santa Theresa

Êxtase de Santa Theresa – Bernini

Mas a arte virou as costas para a beleza. Se tornou escrava da cultura do consumismo, alimentando nossos prazeres e vícios e os afundando em seu próprio desgosto. Isto é, em minha opinião, a lição das mais feias formas de arte e arquitetura. Elas não mostram a realidade, mas se vingam dela estragando o que deveria ter sido um lar e nos deixando desolados e alienados em um deserto espiritual. É claro que é verdade que existem mais coisas no mundo hoje que nos distraem e preocupam. Nossas vidas são cheias de altos e baixos, lutamos contra o barulho e a distração, e nada resolve. A resposta correta, no entanto, não é abraçar esta alienação, mas olhar para rota de escape do deserto, que nos levará a um ponto entre o real e o ideal, que podem ainda existir em harmonia. Em minha vida, achei esse caminho mais fácil através da música, do que entre qualquer outra forma de arte.

Pergolesi tinha 26 anos quando escreveu “Stabat mater”, que descreve o pesar da Virgem Sagrada, diante da cruz do Cristo moribundo. Todos o sofrimento do mundo é simbolizado em suas esplêndidas linhas. Visto que Pergolesi estava sofrendo de tuberculose quando compôs Stabat Mater, ele é aquele filho, morrendo na cruz também. De fato, ele morreu alguns meses depois do término da obra. Esta não é uma complexa ou ambiciosa peça de música, simplesmente a expressão da fé de um compositor, ela mostra a forma, pela qual profundos e atormentados sentimentos podem atingir unidade e liberdade através da música.

Pergolesi

Pergolesi

A voz de Maria é escrita para dois cantores, a melodia se ergue lenta e dolorosamente eliminando a dissonância quando as vozes se confrontam, representando o conflito e o pesar que ela carrega.

– Porque não passamos para a linha 18?
– Sim, boa idéia…
– Aqui temos um simples e sagrado texto.
A mãe chorando e se lamentando na cruz onde seu filho está pendurado. E é tudo o que se precisa dizer!
– E até uma pessoa não musical compreenderia facilmente a mensagem… é uma peça de lamentação, não é mesmo ? Não poderia haver dúvida quanto a isso.
– A música fala além das palavras, e faz as palavras falarem a você em outra linguagem, direto ao seu coração.
– Isto significa que mesmo em nosso mundo secular isto pode comover sem as pessoas terem que saber…
– Sim, exato!
– …do que se trata
– Aprendemos sem os aparatos teológicos sobre nossa existência, através do sofrimento, que é o destino que todos nós, mas que não é nosso fim.

Roger Scrutton

Roger Scrutton

Neste documentário, descrevi a beleza como uma fonte essencial. Através da busca da beleza, modelamos o mundo como um lar e fazendo-o, amplificamos nossas alegrias e o consolo para nossas tristezas. Arte e música, irradiam significado para a vida cotidiana, e através delas, nos tornamos capazes de enfrentar as coisas que nos preocupam e encontrarmos consolo e paz em suas presenças. Esta capacidade da beleza, de redimir nosso sofrimento, é o que a torna capaz de ser vista como uma substituta para a religião. Por que dar prioridade à religião? Por que não dizer que a religião é uma substituta da beleza? Melhor ainda, por que descrevê-las como rivais? O sagrado e o belo, um ao lado do outro, duas portas que levam a um único espaço, e neste espaço, encontramos nosso lar.

Leia: Por que a Beleza Importa – Parte 6

Documentário: Por que a Beleza Importa

Traduzido: Beatriz Angelim
Participação: Felipe Angelim

—————II——————–

Bem, é isso pessoal encerrei a Saga da Beleza, se você chegou até aqui, parabéns! 😉 Deixe um comentário para que eu possa saber que o meu trabalho não foi em vão hehe. Espero que as escamas, a venda, a lama, óculos escuros… tenha saído dos seus olhos e que a partir de agora veja o mundo da Arte em outra perspectiva e sinta sua alma se elevar pelo/ao sagrado. 😉

Obrigado a todos artistas e admiradores da arte!

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10 opiniões sobre “Por que a Beleza Importa – tudo é arte e nada é arte? (Parte 7 – Final)

  1. Eduardo em disse:

    Não encontrei outros comentários, portanto quis deixar claro que seu trabalho não foi em vão. Estou começando a estudar essa área mais a fundo e sua transcrição me ajudou na organização das ideias. Muito obrigado!

  2. Eu gostei bastante dos posts. Obrigado, Cristiano.

  3. Precisei disso para um trabalho e me foi muito útil. Obrigado!

  4. Eduardo Sá Carneiro em disse:

    Muito obrigado pelo trabalho! Sou artista e reconheço a autoridade do pensamento de Roger Scrutton por sua fácil identificação com a totalidade das experiências da maior parte dos seres humanos e pelo seu evidente contraste com o degradante e hegemônico senso comum academicista atual.

  5. Julianna em disse:

    Grande contribuição, muito obrigada! Já tinha visto o vídeo, mas sua transcrição ajuda muito quando vou citar ou recomendar a alguém. 😉

  6. Já assisti o documentário 2 vezes… Mas, estava querendo relembrar e encontrei aqui pra ler!
    Seu trabalho não foi em vão, foi bem útil por sinal haha

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