Ramos de Cultura

Por que a Beleza Importa – tudo é arte e nada é arte? (Parte 5)

(Cont) Roger Scrutton

A idéia de que o mundo é intrinsecamente significativo, coberto de um encantamento que não necessita de doutrina religiosa para percebê-lo, uma vez que é uma profunda necessidade emocional. A beleza não foi colocada no mundo por Deus, mas descoberta nele pelas pessoas. O ideal de Shrewsbury encorajava o culto à beleza, que elevava a apreciação da arte e da beleza ao papel que fora ocupado pelo culto à Deus. A beleza deveria preencher o vazio com o “formato de Deus”, criado pela ciência. Artistas não eram mais ilustradores das historias sagradas, a serviço da Igreja; eles estavam descobrindo as historias por si mesmos, ao interpretar os segredos da natureza. Campos, que costumavam ser meros panos de fundo para imagens sagradas, se tornaram o foco, com humanos apenas de figuração.

Raphael - The small Cowper Madonna

Raphael – The small Cowper Madonna

Mas para Shrewsbury, não era necessária uma obra de arte para nos mostrar a beleza do mundo. Apenas devemos olhar para as coisas com atenção e sentimentalidade. Shrewsbury está nos dizendo: “pare de de usar as coisas, de querer explicá-las, contemple-as, em vez disso. Assim entenderemos o que elas significam. A mensagem da flor, é a flor. Budistas Zen disseram coisas semelhantes. somente deixando nossos interesses de lado é que encontraremos da verdade real da flor.

Flor desabrochando

Flor desabrochando

Vendo as coisas por este lado, descobrimos sua beleza. O maior filósofo do Iluminismo, Immanuel Kant, foi profundamente influenciado pelas idéias de Shrewsbury. Kant argumentou, que a experiência da beleza, vêm quando abandonamos nossos interesses, quando olhamos para as coisas não com a intenção de usá-las para nossos propósitos, explicar como elas funcionam, ou satisfazer alguma necessidade ou desejo, mas apenas para observá-las e assimilar o que elas são.

Immanuel Kant - Filósofo Iluminista

Immanuel Kant – Filósofo Iluminista

Considere a alegria que sentimos ao segurar o bebê de uma amiga, você não quer fazer nada com o bebé, você não quer comê-lo, usá-lo para algo, ou fazer uma experiência científica com ele. você apenas quer sentir a vida que emana quando você coloca todo o seu foco neste bebê e não mais em si mesmo. Esta é o que Kant descreveu como uma atitude desinteressada, a atitude que permeia nossa experiência da beleza.

Explicar isto é extremamente difícil, pois se você não vivenciou isto, não sabe o que significa. Mas todos, ao ouvir boa música, olhar uma paisagem sublime, ler um poema que parece conter a essência daquilo que descreve, todos que passam por uma experiência como essa dizem: “Sim, isto é suficiente!”. Mas por que esta experiência é tão importante ? O confronto com a beleza é tão imediato, tão vívido, tão pessoal, que parece difícil que pertença ao mundo ordinário. Sim, a beleza brilha sobre nós através de coisas comuns. Será esta uma característica do mundo ou apenas nossa imaginação? Na maior parte do tempo, nossa vida gira em torno de nossas preocupações diárias, mas às vezes, nosso foco é mudado, na presença algo muito mais importante que nossos desejos e interesses imediatos, algo que não é deste mundo.

De Platão a Kant, filósofos tentaram capturar a peculiar maneira com a qual a beleza nos comove, como um súbito raio de sol, ou o ímpeto do amor. Para Platão, a única explicação de tal experiência, era sua origem transcendente, que nos atinge, como a voz de Deus. E Kant também, de uma maneira muito mais sóbria, crê que experienciar a beleza nos conecta com o mistério máximo da existência. Através da beleza somos trazidos à presença do sagrado.

O Sagrado

O Sagrado

Podemos entender o que estes filósofos queriam dizer, se refletirmos no que sentimos na presença da morte, especialmente a morte de uma pessoa amada. Olhamos com aversão para o corpo cuja a vida se esvaiu, relutamos em tocar o corpo, o vemos como não exatamente parte do nosso mundo, quase como um visitante de uma outra esfera.

Exéquias

Exéquias

E o mesmo sentido do transcendente, emerge da experiência que inspirou Platão: a experiência de se apaixonar. Estas duas coisas são parte do universo humano, e são experiências de um tipo estranho. O rosto e o corpo do ser amado estão imbuídos de intensidade de vida, mas eles são como o corpo de uma pessoa morta em um aspecto crucial: parecem não pertencer ao mundo cotidiano. Poetas gastaram muitas palavras com esta experiência, que nenhuma palavra parece descrever completamente. Mas estas grandes mudanças no sonho da vida, a necessidade de se unir a outra pessoa, a perda de um ser amado, são momentos que entendemos como sagrado.

Beijo

Beijo ardente

Leia: Por que a Beleza Importa – Parte 6

Documentário: Por que a Beleza Importa

Traduzido: Beatriz Angelim
Participação: Felipe Angelim

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