Ramos de Cultura

Por que a Beleza Importa – tudo é arte e nada é arte? (Parte 4)

(Cont) Roger Scrutton

Estes são momentos atemporais, em que sentimos a presença de outro e mais elevado mundo. Desde o começo da civilização ocidental, poetas e filósofos viram a experiência da beleza como uma aproximação com o divino. Platão, escrevendo em Atenas no séc IV a.C, argumentou que a beleza é o sinal de uma outra ordem, superior.

“Contemplando a beleza com os olhos da mente, ele escreveu, você será capaz de nutrir a verdadeira virtude e se tornar amigo de Deus.”

Platão

Platão

Platão era um idealista. ele acreditava que os seres humanos são peregrinos e passageiros neste mundo, que estão sempre aspirando para além dele, para o eterno reino onde estarão unidos com Deus. Deus existe, em um mundo transcendente, para o qual nós humanos aspiramos, mas que não podemos conhecer diretamente. Mas uma forma de vislumbrar esta esfera divina daqui debaixo, é através da experiência da beleza. Isto leva a um paradoxo. Para Platão, a beleza era primeiramente, e sobretudo, a beleza do rosto humano e da forma humana. O amor da beleza, ele pensou, se origina em Eros, a paixão que todos nós sentimos. Chamaríamos isto de “amor romântico”. Para Platão, Eros era uma força cósmica, que flui através de nós sob a forma de desejo sexual. Porém se a beleza humana evoca desejo, como ela pode ter relação com o divino? Desejo é para o indivíduo, vivendo neste mundo. É uma paixão urgente. O desejo sexual nos dá uma escolha: adoração ou lascívia, amor ou luxúria. Luxúria é sobre tomar, mas amor é sobre dar. Luxúria traz a feiura, a feiura da relação humana onde um pessoa trata a outra como um objeto dispensável. Para alcançar a fonte da beleza, devemos abandonar a luxúria. E este sentimento, sem a luxúria, é o que queremos dizer hoje com “amor platônico”. Quando vemos beleza em uma pessoa, é porque vislumbramos nela a luz da eternidade brilhando de uma fonte divina, além deste mundo.

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Beleza

A bela forma humana é um convite para nos unirmos a ela, espiritualmente, não fisicamente. O que sentimos sobre beleza é como o que sentimos sobre religião: não é um sentimento sensual. Esta teoria de Platão é magnífica. Beleza, ele pensou, era uma visitante de outro mundo. Não podemos fazer nada com ela, salvo contemplar sua radiante pureza. Qualquer outra coisa, poluí-a, profana-a, destruindo sua aura sagrada. A teoria de Platão pode parecer ultrapassada para as pessoas de hoje, porém é uma das mais influentes teorias da história. Durante nossa civilização, poetas, contadores de histórias, pintores, padres e filósofos, foram inspirados pela visão de Platão sobre sexo e amor. Se olharmos na seção de poesia, encontraremos muitos livros de pessoas que tentavam explicar a visão platônica do erótico.

Veja este aqui! “The death of Arthur” de Thomas Mallory, John Donne, aqui e ali, “Sir Gawain and the Black Knight”, Chaucer, especialmente em “A Knight’s Tale”, poemas manuscritos de Poe, inacreditáveis expressões da visão platônica… Cavalcanti, que foi o mestre de Dante e Dante mesmo inclusive, Spenser, claro “The Faerie Queen”, Dafydd ap Gwilym onde temos a versão galesa (País de Gales) disto, As Mulheres Trubadur, Christina Rossetti, que tem uma visão mais Vitoriana, e assim vai…

O pintor renascentista Sandro Botticelli, ilustrou a teoria nesta famosa pintura, que mostra o nascimento de Vênus, deusa do amor erótico. Vênus olha para o mundo de um local além do desejo, ela nos convida a transcender nossas paixões terrenas e nos unirmos a ela, através do amor puro à beleza A musa de Botticelli foi Simonetta Vespucci. Botticelli a amou até o fim de sua breve vida, e pediu para ser enterrado a seus pés. Ela era, para ele, a representação do ideal de Platão: era a beleza a ser contemplada, mas não possuída.

Vênnus de Botticelli

Vênnus de Botticelli

Platão e Botticelli nos dizem que a verdadeira beleza está além do desejo sexual. Então podemos encontrar beleza não somente em uma pessoa jovem e desejável, mas também num rosto envelhecido, cheio de pesar e sabedoria, como a pintura de Rembrandt. A beleza de um rosto é o símbolo de uma vida expressa nele, sua carne se transforma em espírito e ao fixar nossos olhos nele, vemos através da alma. Pintores como Rembrandt foram importantes por nos mostrarem a beleza como algo corriqueiro, ela está ao nosso redor, precisamos apenas dos olhos para vê-la e do coração para senti-la.

Rembrandt - Portrait of Nicolaes Ruts

Rembrandt – Portrait of Nicolaes Ruts

O acontecimento mais banal pode ser transformado em algo belo, por um pintor que pode ver o coração das coisas. Enquanto a crença em um Deus transcendente estava enraizada na nossa civilização, artistas e filósofos continuaram a ver a beleza do ponto de vista de Platão. A beleza era a revelação de Deus, no aqui e agora.

Beleza transcendetal

Beleza transcendental

Religião com mais de 2 mil anos

Religião com mais de 2 mil anos

Esta religião ligada à beleza durou dois mil anos, mas no séc XVII a revolução científica começou a semear a dúvida. A visão medieval aceitou a idéia de que a terra era o centro do universo, Então, Copérnico e Galileu, provaram que a terra gira em torno do sol, e Newton completou o trabalho, descrevendo o universo como um relógio onde cada momento se sucede mecanicamente.

Relógio

Relógio

Esta era a visão do Iluminismo, que descrevia nosso mundo como se não houvesse mais lugar nele para deuses e espíritos, nem para valores e ideais. Sem lugar para nada, além do movimento regular do relógio que move a Lua em torno da Terra e a Terra em torno do Sol sem nenhum propósito maior.

Terra

Terra

No centro do universo newtoniano, há um vazio com o “formato de Deus”, um vácuo espiritual, e um filósofo em particular buscou preencher este vácuo: o terceiro Conde de Shaftesbury. A ciência explica as coisas, porém, para Shaftesbury, parte do mundo estava ainda, de alguma forma, incompleta. Podemos ver o mundo por outra perspectiva, não buscando usá-lo ou explicá-lo, mas simplesmente contemplando sua aparência, como podemos contemplar um campo ou uma flor.

Leia: Por que a Beleza Importa – (parte 5)

Documentário: Por que a Beleza Importa

Traduzido: Beatriz Angelim
Participação: Felipe Angelim

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