Ramos de Cultura

Por que a Beleza Importa – tudo é arte e nada é arte? (Parte 3)

(cont) Filósofo Roger Scrutton

Certamente algo não é uma obra de arte só por mostrar a realidade, incluindo a feiura, e se auto chamar de arte. A arte necessita de criatividade, e criatividade, é sobre dividir, chamar os outros para ver o mundo como o artista o vê. É por este motivo que vemos beleza na arte inocente das crianças. Crianças não estão nos dando idéias no lugar de imagens criativas, nem estão se afundando em feiura. Elas estão tentando afirmar o mundo como o vêem, e dividir o que sentem. Algo da criatividade deliciosamente pura das crianças, sobrevive em cada verdadeira obra de arte. Mas criatividade não é suficiente, e o talento do verdadeiro artista, é mostrar o real sob a luz do ideal, e então, transfigurá-lo. Isto é o que Michelângelo alcança em seu grande retrato de David.

David - Michelangelo

David – Michelangelo

Mas quando encontramos uma cópia em concreto de David, talvez como parte do arranjo de algum jardim, ela não é bela de fato, pois lhe falta o ingrediente essencial da criatividade. Discussões do tipo que eu estive tendo são perigosas. Em nossa cultura democrática, as pessoas geralmente pensam que é ameaçador julgar o gosto de outra pessoa.

Cópias de David de Michelangelo

Cópias de David de Michelangelo

Alguns se sentem ainda ofendidos com a sugestão de que existe uma diferença entre bom e mau gosto, ou de que importa o que você olha, lê ou escuta. Mas isto não ajuda ninguém. Existem padrões de beleza, que tem firmes bases na natureza humana precisamos zelar por eles e trazê-los para nossas vidas. Talvez as pessoas tenham perdido a fé na beleza, pois perderam a crença em ideais, ou apenas por terem passado a acreditar no mundo do desejo animal. Não existem valores além dos que são úteis; algo tem valor, se tem utilidade.

E qual é a utilidade da beleza?

“Toda arte é absolutamente inútil”, disse Oscar Wilde, que havia notado isto como um elogio. Para Wilde, a beleza tem um valor maior do que a utilidade. Pessoas precisam de coisas inúteis tanto quanto, ou mais ainda, precisam de coisas úteis. Pense nisto: qual é a utilidade do amor? da amizade? da devoção? Nenhum, de fato. E o mesmo serve para a beleza. Nossa sociedade consumista pensa na utilidade primeiro, e a beleza não passa de um efeito colateral. Sendo a arte é inútil, não importa o que você lê, o que olha, o que ouve. Somos inundados de mensagens por todos os lados, tentados pelo desejo, indiscriminadamente. E esta é uma das razões pela qual a beleza esta desaparecendo de nosso mundo. Recebendo e gastando, vivemos para nada exaustando nossas energias.

Na nossa cultura de hoje, a propaganda é mais importante que a obra de arte, e as obras de arte sempre tentam ganhar nossa atenção como as propagandas o fazem, sendo rudes ou escandalosos, como este crânio de platina ornado de pedras, por Damien Hirst.

Damien Hirst, For the Love of God, 2007

Damien Hirst, For the Love of God, 2007

Como as propagandas, as obras de arte de hoje buscam criar uma marca, mesmo não tendo produto a vender, exceto elas mesmas. A beleza partiu para duas direções: para culto da feiura nas artes, e para o culto da utilidade no cotidiano. Estes dois cultos foram, juntos, para o mundo da arquitetura. Na virada do séc XX, arquitetos, como artistas, passaram a ficar impacientes com a beleza e a substituí-la por utilidade. O arquiteto americano, Louis Sullivan, expressou a crença dos modernistas, quando disse que “a forma segue a função”.

Louis Sullivan

Louis Sullivan

Em outras palavras, “pare de pensar na aparência de uma construção e pense, em vez disso, no que ela faz”. A doutrina de Sullivan, tem sido usada para justificar o maior crime contra a beleza que o mundo jamais viu, que é o crime da arquitetura moderna.

Arquitetura Moderna

Arquitetura Moderna

Eu cresci nos arredores de Reading, que era uma charmosa cidade vitoriana, com ruas arborizadas e igrejas góticas, coroadas por elegantes prédios públicos e hotéis. Mas nos anos 60 as coisas começaram a mudar. Aqui, no centro, uma rua inteira foi demolida para dar lugar a escritórios e uma estação de ônibus. Tudo projetado sem preocupação com a beleza. e o resultado prova, claramente, que se você considerar somente a utilidade, as coisas que você construiu, vão se tornar inúteis. Este prédio foi abandonado, pois ninguém tem uso para isto; ninguém tem um uso para isso pois ninguém quer ficar nele; ninguém quer ficar nele porque ele é feio!

Para onde olhamos, há feiura e mutilação. Os escritórios e a estação de ônibus foram abandonadas e as únicas coisas que habitam o local são pombos, cobrindo os pavimentos. Tudo foi vandalizado. Mas não devemos culpar os vândalos. este lugar foi construído por vândalos, os pichadores apenas finalizaram o trabalho.

Prédio (in)útil

Prédio (in)útil

A maior parte de nossas cidades tem áreas como esta, em que prédios foram eretos apenas para uso, e que rapidamente se tornaram inúteis. Não que os arquitetos tenham aprendido com este desastre… Quando o público começou reagir contra o brutal estilo do concreto nos anos 60, os arquitetos apenas o substituíram por um novo tipo de lixo: paredes de vidro sustentadas por vigas de ferro com detalhes absurdos que não combinam. O resultado é um outro tipo de fracasso, que existe apenas para ser demolido.

Arquitetura de Chicago

Arquitetura de Chicago

No meio de toda esta tragédia, encontramos um fragmento das ruas que foram destruídas. O que foi uma ferraria, hoje é um café, e as pessoas vêm aqui, de toda a parte, porque este é a última gota de vida que resta; e a vida vem da construção. Isto me leva novamente à observação de Oscar Wilde, de que toda arte é absolutamente inútil. Priorize a utilidade e você a perderá, priorize a beleza e o que você construir será útil para sempre. Ocorre que nada é mais útil que o inútil. Nós vemos isto na arquitetura tradicional, com seus detalhes decorativos, ornamentos livres da “tirania do útil”, que satisfazem a nossa necessidade por harmonia e de uma forma estranha, elas nos fazem nos sentir em casa. Eles nos lembram de que temos mais que necessidades práticas, não somos governados apenas por instintos básicos como comer e dormir, temos necessidades morais e espirituais também, e se uns precisam ser satisfeitos, os outros também. Todos sabemos como é, até mesmo no dia-a-dia, ser transportado de repente por coisas que vemos, do mundo ordinário dos nossos desejos, para a iluminada esfera da contemplação. O raio do sol, a lembrança de uma melodia, o rosto de uma pessoa amada, isto nos toma nos momentos mais distraídos que, de repente, a vida vale a pena.

Documentário: http://vimeo.com/55990936#at=0

Leia: Por que a Beleza Importa – Parte 4

Traduzido: Beatriz Angelim
Participação: Felipe Angelim

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