Ramos de Cultura

Por que a Beleza Importa – tudo é arte e nada é arte? (Parte 2)

(Cont) Filósofo Roger Scrutton

Houve um tempo em que a arte cultuava a beleza. Agora temos um culto à feiura, no lugar. Sendo o mundo perturbador, a arte deveria ser perturbadora também. Aqueles que procuram beleza na arte apenas estão por fora da realidade moderna de beleza. Às vezes a intenção é nos chocar, mas o que é chocante de início, se torna chato e vazio, quando repetido. Isto transforma a arte em uma piada elaborada que perdeu a graça, se os críticos continuarem a encorajar isto, com medo de dizerem que “o imperador está nu”.

Damien Hirst - a thousand years (um exemplo de Arte Pertubadora)

Damien Hirst – a thousand years (um exemplo de Arte Perturbadora)

A arte criativa não é feita do nada, somente se tendo uma idéia. Sim, idéias podem ser interessantes e prazerosas, mas isto não justifica a apropriação do papel da arte. Se uma obra de arte, não é nada mais do que uma idéia, qualquer um poderia ser um artista e qualquer objeto uma obra de arte… Não existe mais nenhuma necessidade de habilidade, gosto ou criatividade.

Marcel Duchamp - Late Night Line Up, bbc

Marcel Duchamp – Late Night Line Up, bbc

– O que você está tentando fazer, ao meu ver, é desvalorizar a arte, simplesmente dizendo:”se eu disser que isto é uma obra de arte, isto se torna uma obra de arte!”
– Sim, mas a expressão “obra de arte” não é importante para mim! Não me importo com a palavra “arte” porque ela se tornou tão… descreditada, digamos.
– Mas você de fato contribuiu para seu descrédito, intencionalmente.
– Sim, intencionalmente, como uma forma de me livrar dela. porque desta mesma forma muitas pessoas se livraram da religião.

O povo aceitou Duchamp, com suas próprias avaliações. Acredito que ele não se livrou da arte, mas se livrou da criatividade. De qualquer forma, os trabalhos de Duchamp ainda influenciam a arte hoje. O artista Michael Craig-Martin, que ensinou muitos jovens artistas britânicos, cujos trabalhos dominam o mundo da arte, segue os exemplos de Duchamp com seu próprio trabalho semiótico chamado, “An Oak Tree” (Um Carvalho). que consiste em um copo de água em uma prateleira, e um texto explicando o porquê isto é um carvalho.

Um Carvalho by Michael Craig-Martin

Um Carvalho by Michael Craig-Martin

– Quando entrei pela primeira vez em São Pedro e me deparei com Michelângelo, pra mim foi uma experiência transportadora, minha vida foi mudada por ela. Você acredita que alguém possa ter a mesma experiência com o “Urinol” de Duchamp, ou talvez com seu “Oak Tree” que é similar?

– Eu sei que quando era adolescente e descobri Duchamp, fiquei absolutamente fascinado. Eu não acho que as pessoas estão sobrecarregadas por um senso de beleza quando dizem que o “Urinol” não é feito para ser belo. Mas isto não significa que não haja algo sobre ele que captura a imaginação, e eu acho que “capturar a imaginação” é a chave para o que a arte moderna pretende. Duchamp dizia que a arte havia se tornado muito preocupada com técnica, muito preocupada com ótica. Ele acreditava que ela havia se tornado imoralmente intelectualmente corrompida e sua razão para fazer obras de arte que não se encaixavam neste sistema não era cinismo, era como para dizer:

Maic

Michael Craig-Martin

“Estou tentando fazer arte que nega todas as coisas que as pessoas dizem que a arte deve ter, porque estou tentando dizer que o centro da arte está em outro lugar.”

– Entendo o que quer dizer, as coisas deveriam mudar e Duchamp estava tentando mudá-las. mas, para que outra coisa ele estava tentando mudá-las?

– Não, é… ele nunca poderia imaginar o que aconteceria, ele mesmo, tenho certeza, não tinha idéia das proporções que o que ele fez tomariam; basicamente que uma obra de arte é uma obra de arte porque pensamos assim. Acho também importante dizer que a noção de arte foi estendida para incluir coisas em que não pensávamos. Esta é parte da função da arte: tornar belo, fazer alguém ver algo como belo, algo que ninguém havia visto como belo até o momento.

– Sim, como a “lata de merda”…
– Bem, er, não estou certo se é algo bonito,

Merda d´artista - 1961

Merda d´artista – 1961

mas se você tomar um exemplo que não está tentando ser belo, se você pegar um Jeff Koons… Jeff Koons tem feito coisas que são verdadeiramente bonitas.

Jeff Koons - Balloon

Jeff Koons – Balloon

– Parece muito Kitsch para mim, porém os de Kitsch eram todos agradáveis…
– Este é o objetivo, a essência de seu trabalho.
– Qual é a utilidade desta arte, em que isto ajuda as pessoas?

– Eu penso que…espero que isto permita as pessoas a ver o mundo no qual vivem, num sentido de que isto dê mais sentido a ele. E não é o mundo de um mundo ideal, de outro mundo ou de algum lugar melhor, mas o aqui e agora, o mundo em que estão e em que tentam viver, porém mais fácil do que o real. Então, a arte de hoje nos mostra o mundo como ele é, o aqui e agora e todas as suas imperfeições. Porém, é seu resultado REALMENTE arte?

Mark Wallinger

Mark Wallinger

Documentário na íntegra: http://vimeo.com/55990936#at=0

Leia: Por que a Beleza Importa (parte 3)

Traduzido: Beatriz Angelim
Participação: Felipe Angelim

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