Ramos de Cultura

Por que a Beleza Importa – tudo é arte e nada é arte? (Parte 1)

Olá galera, trago aqui a transcrição de um documentário sensacional a respeito da Beleza 😉 inclusive sanou muitas dúvidas minhas a respeito do que é arte. Nascemos em um período tão louco que desde o berço aprendemos o ERRADO como se fosse CERTO. Lembro que no documentário do Banksy ele levantava essa questão o que é arte? Quem pode criar?  E o filósofo deste documentário responde tintin por tintin e pronto! As escamas caem dos nossos olhos 😀

Detalhe: Venus de Botticelli

Detalhe: Venus de Botticelli

Este documentário foi dirigido pelo filósofo inglês Roger Scruton – um dos mais importantes intelectuais conservadores da Europa – e veiculado pela BBC em 28/11/2009. Nele, de uma forma brilhante, instigante e muito elucidativa, o Professor Roger Scruton demonstra como a partir do século XX, perdendo o senso ético e estético de(a) Beleza, a humanidade afundou-se ainda mais no que ele chama, com inteira razão, de deserto espiritual. Tal deserto, indubitavelmente, é um dos frutos do ideal, soberbo e falacioso, da modernidade iluminista que assentiu que “o homem é a medida de todas as coisas“. Hoje, já na pós-modernidade da humanidade, já não há mais senso ético e estético de Verdade, de Bondade ou, como bem explica Dr. Scruton, de Beleza. As consequências disso? Muitas! Todas girando em torno do que no cristianismo se chama de “feiúra da alma” ou, nas palavras do filósofo inglês “a cult of ugliness”.

Por que a Beleza Importa por Roger Scruton

Por que a Beleza Importa por Roger Scruton

“Em qualquer tempo, entre 1750 e 1930 , se pedisse a qualquer pessoa educada para descrever o objetivo da poesia, arte e da música eles teriam respondido: A BELEZA!

E se você perguntasse o motivo disto, aprenderia que a beleza é um valor tão importante quanto a verdade e a bondade. Mas no século XX a beleza deixou de ser importante A arte gradativamente se focou em perturbar e quebrar tabus morais. Não era BELEZA, mas ORIGINALIDADE atingida por quaisquer meios e a qualquer custo moral, que ganhava os prêmios.

Não somente a arte fez um culto a FEIÚRA como a arquitetura se tornou desalmada e estéril. E não foi somente nosso entorno físico que ficou feio: nossa linguagem, música e maneiras estão cada vez mais rudes, auto centradas e ofensivas, como se a beleza e o bom gosto, não tivessem lugar em nossas vidas. Uma palavra é escrita em letras garrafais em todas estas coisas feias, e a palavra é: EGOISMO. “Meus lucros”, “meus desejos”, “meus prazeres”. E a arte não tem o que dizer em resposta, apenas: “sim, faça isso”! Penso que estamos perdendo a beleza e existe o perigo de que, com isso, percamos o sentido da vida.

Sou Roger Scruton, filósofo e escritor. Meu trabalho é fazer perguntas. e durante os últimos anos, venho fazendo perguntas sobre a beleza. A beleza tem sido essencial para a nossa civilização por mais de 2.000 anos. Em seu inicio, na Grécia antiga, a filosofia refletiu sobre a arte, música, arquitetura, e a vida cotidiana. Filósofos argumentaram que, através da percepção da beleza, moldamos o mundo como um lar. Também passamos a entender sua própria natureza, sua essência espiritual. Mas nosso mundo virou as costas para a beleza. E, por este fato, nos encontramos rodeados de feiúra e alienação. Quero persuadí-lo de que a beleza importa, de que não é somente algo subjetivo, mas uma necessidade universal do ser humano. Se ignoramos esta necessidade, nos encontramos em um deserto espiritual. Quero te mostrar a rota de fuga deste deserto. Este é um caminho que nos leva de volta ao lar.

Roger Scruton filósofo

Roger Scruton filósofo

Os grandes artistas do passado, estavam cientes que a vida humana é cheia de caos e sofrimento. Mas eles tinham um remédio para isto, e nome deste remédio, era beleza. A bela obra de arte traz consolação na tristeza e afirmação na alegria. Ela mostra que a vida humana vale a pena. Muitos artistas modernos se esqueceram desta sagrada tarefa. O caos da vida moderna, eles pensam, não pode ser redimido pela arte. Em vez disso, ele deveria ser exposto. Este padrão foi criado quase um século atrás pelo artista francês Marcel Duchamp, que assinou um  urinol (Mictório) com uma assinatura falsa “R.Mutt” e colocou isto numa exibição.

Duchamp - Urinol (Mictório)

Duchamp – Urinol (Mictório)

Seu gesto foi satírico, feito para zombar do mundo da arte e a arrogância que ele contém. Mas isto foi interpretado de outra forma, mostrando que qualquer coisa poderia ser arte, como uma luz que acende e apaga… uma lata de excremento… até mesmo uma pilha de tijolos. Não tendo mais a arte um estatuto sagrado; não estando ela mais em um padrão moral e espiritual elevado; ela se torna apenas mais um gesto humano entre outros, não mais significativo do que uma gargalhada ou um grito.

Carl Andre - equivalent viii

Carl Andre – equivalent viii

– Acho que estão fazendo graça conosco!
– É uma pilha de tijolos!

(Separei a transcrição pois ficou muito grande, mas o vídeo está aqui abaixo completo)

http://vimeo.com/55990936#at=0

Leia:

Por que a beleza importa (Parte 2)

Traduzido: Beatriz Angelim
Participação: Felipe Angelim

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10 opiniões sobre “Por que a Beleza Importa – tudo é arte e nada é arte? (Parte 1)

  1. Eliane em disse:

    Comecei a aprender o que achava que já sabia…
    Incrível!

  2. Estamos perdendo referência de beleza. Texto muito bom.

  3. Assisti o documentário. Minhas conclusões vão parecer meio dramáticas, mas é tudo muito sincero. Como eu disse na mensagem que te mandei (não sei se tu recebeu): Me sinto uma tola que caiu no papo rebuscado de farsantes engenhosos. Há poucas horas, tu pode ver nos meus comentários naquela nossa discussão sobre arte, eu ainda tentava defender a “arte” contemporânea bem aos moldes de alguém com medo de “dizer que o imperador está nu”. Eu, de fato, nunca concordei, nunca gostei, nunca admirei e nunca admiti pra mim mesma a validade dessas “obras”, mas admitia pras outras pessoas do “mundo das artes” pra não parecer antiquada, conservadora, moralista e desprovida de conhecimento acadêmico. Num curso superior de artes visuais, querer beleza em obras de arte é tão desprezível quanto fazer artesanato achando que é arte. É ingenuidade, é falta de senso crítico, é como se a pessoa fosse um leigo iniciante, um calouro que ainda não descobriu a “verdade”. Parece que quanto mais perto tu tá da formatura, mais tu tem que saber desconstruir as coisas, mais tu tem que questionar e se afastar da obviedade e da normalidade. E eu admitia a validade dessa “arte” pra pessoas de fora do meio pra legitimar minha escolha acadêmica. Eu ia pra aula e achava tudo absurdo, sem nexo, até uma afronta aos meus princípios, mas chegava em casa e exaltava tudo aquilo pros meus pais pra que eles me apoiassem, com medo de que eles não valorizassem essa escolha. E eu fui cultivando essa mentira, defendendo a arte contemporânea diante de todos que me pediam coisas como “Tu faz o que nesse curso? Vela? Sabonete?” e “Mas e aí, já pintou um quadro?”, até que, quando vi, tava acreditando nessa mentira, como tu pode ver pelos meus “não concordo mas é assim”. Ou melhor, nem vi. Acabei de me situar e descobrir que eu já tava nesse nível de ilusão. Eu até chorei enquanto assistia o documentário! Sério! Eu acho que a sensação que eu tive deve ser a mesma de um ateu que passou anos tentando convencer os outros e a si próprio que Deus não existe e um dia se converte. E agora vem a parte mais dramática, mas eu falei que ia ser sincera, né? Hahaha! To me sentindo uma pecadora miserável. Não algo tão simplista do tipo “acreditar em arte contemporânea é pecado”, mas, analisando os sentimentos envolvidos e como eu me comportei em decorrência de acreditar nela e constatando o que isso implica em termos espirituais, tenho certeza de que em algum momento nesses 4 anos de faculdade ofendi a Deus. Porque, justamente pelo “belo estar lado a lado com o sagrado”, como o cara diz, no momento em que eu tava compactuando com a feiura, eu automaticamente tava me colocando contra o sagrado! Como pode uma cristã católica amar a Deus, o Amor, a beleza da criação, a beleza da arte sacra e a perfeição das obras de Deus e ao mesmo tempo aceitar essa “negação do amor”?! É mais ou menos como me senti quando assisti a pregação da Fernanda no RVJ 2012 sobre mulheres, feminilidade e tal. Não lembro o nome da pregação, mas lembro que até então eu gostava de posar de “mulher independente” que não sabia se queria ter filhos, que não se submeteria a um homem etc na frente das minhas amigas pseudo-feministas, porque ser mulher nos planos de Deus, segundo a Bíblia e tal, me parecia uma coisa muito inferior, demonstrava fraqueza. Eu achava que ser piedosa era ser bobinha, tolinha, ingênua. E assistir esse documentário fez meu mundo cair tanto quanto essa pregação. Parece que agora as coisas fazem mais sentido, que eu resolvi um enigma! E me analisando agora eu vejo claramente que eu tenho essa sede de beleza, que eu sempre tive! Tinha lido a Carta de JPII uns anos atrás e me apaixonado, li de novo agora quando tu me lembrou dela e amei tudo de novo (mas fiquei me julgando por isso, imaginando o que meus colegas e professores achariam dela). Meus artistas preferidos são figurativos e com alta maestria técnica… E eu sempre fui louca por antiguidades, arquitetura antiga, música erudita, cinema antigo, épocas passadas… todas as vertentes daquela arte que ainda continha beleza! Sempre fui uma dessas pessoas de “mente idosa”, saca? Cara, te contar, viu? To me sentindo LIBERTA!

    • Camila, você não está sozinha nesse sentimento, o mais engraçado é que essa discussão artística cai como uma luva em outras discussões “contemporâneas”. A exemplo temos as novas “regras” de conduta social, politica e economica. Hoje em dia é “feio” se destacar, ser grandioso. Eu tive quase que exatamente os mesmos sentimentos que você mas através de outros assuntos. Sua coragem em admitir e corrigir os erros, em enfrentar a manada e ter suas proprias conclusões não demonstram fraqueza e sim força. Ao meu ver é uma revelação libertadora mesmo, quem diria que tivessemos tanta informação errada anexada a palavra “conservador” não é?

      Acredito que ja tenha tido acesso ao que vou recomendar agora, caso contrario recomendo a leitura do livro “A Nascente de Ayn Rand”, para o desatento talvez não tenha nada a ver, mas trata do mesmo assunto, expandindo a análise para outros aspectos da vida humana!

      Grande abraço.

      • Bah, vi tua resposta totalmente por acaso, Pedro. Sensacional, aliás. Na verdade, pra esses que associam conservadorismo à coisas-ultrapassadas-que-impedem-a-evolução-do-mundo, tudo que se relaciona com o Bom, o Belo e a Verdade é considerado ultrapassado, né? Ainda que não coloquem nesses termos, e sequer o percebam.

        Na época do comentário eu ainda estava redescobrindo as verdades que estavam soterradas embaixo das ideias tristes e vazias de Kosuth e amigos. E pouco antes dele, ainda achava que o Cris devia ter mais prudência com seus comentários sobre arte, afinal, ele era só mais um publicitário que não tinha se aprofundado o suficiente pra entender a “grandeza da função da arte” que só era ensinada por mestres altamente capacitados, como os da minha universidade. (Hahahaha pra ti, Camila!)

        Mas felizmente esses dois anos e tanto me proporcionaram muitas oportunidades de desintoxicação artística, de aprendizado e de remissão. Fiz cursos de iconografia bizantina, li muito sobre a verdadeira arte (nem lembro mais dos autores que lia na minha época pré-Scruton!) e, pra ratificar minha escolha, deixei pra lá todas as obras conceituais que fiz nos primeiros anos de faculdade, e fiz as obras e o texto do meu TCC baseados na ideia central de que a arte, por meio da beleza, leva os espectadores ao transcendente. 🙂 Diz aí, TO CURADA, hein, Cristianvm?! HAHAHA!

        Obrigada pela indicação de livro, fiquei curiosíssima. Pelo que vi, parece super adequado ao momento de imposição de ideologias que estamos vivendo!

        E bora divulgar o apostolado da Beleza com nossas vidas!

  4. E eu digo mais! Consigo ver relação desse documentário com toda essa questão Extraordinária que nos move. Liturgia tradicional, rito romano extraordinário, ícones, igrejas medievais, tradição… tudo isso também remete a essa beleza, e, consequentemente, ao sagrado. As missas e igrejas perderam muito da sacralidade justamente porque se afastaram do belo. Consigo ver analogias entre a dissolução das fronteiras entre sagrado e cotidiano dentro da Igreja e a dissolução das fronteiras entre arte e não-arte no meio artístico.

  5. Desconhecia este cidadão, Roger Scruton, e lavei a alma com seu documentário! Bâlsamo para o coração e esperança de dias melhores … . Ao frequentar teatros, assistindo espetáculos “artísticos” que me deprimem, martela, em minha cabeça, a pergunta: o que está acontecendo com a humanidade?

    • Obrigado pelo comentário 😉 de fato, também penso para onde caminha a humanidade? 😥 Depois que tiraram Deus do centro da vida, vimos só aberrações, mas, nem tudo está perdido. Ainda vemos raios de luzes na escuridão. Devemos levar a Verdadeira Arte para as pessoas e alertar sempre sobre a Beleza de Deus 😉

  6. Uma grande merda

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