Ramos de Cultura

Carta de um Padre ao Rockeiro Católico

Bem, o que apresento hoje é um texto bem longo, porém, de grande valia para todos as pessoas que curtem o gênero musical Rock’n Roll. O Padre Zezinho conseguiu passar bem o ensinamento e a conduta que devemos ter dentro da Igreja sem ferir nossa fé e liturgia e podendo somar mais sem nenhum preconceito com o gosto do próximo.

Uma carta de Pe. Zezinho para um rockeiro católico.

Caro Eraldo,

Vi você meio triste com o que andaram dizendo a respeito dos seus meninos que tocam rock para Jesus. Não gravo aí, não sou da RCC, acho que também tenho carismas e entendo que, nessas horas, a gente mostra se vê ou não vê o valor dos outros. Alguém discordou de vocês. Então ouça-me. Eu vejo aonde vocês querem chegar e sei que não foi, não é nem será fácil. Começo propondo-lhe que leia Colossenses 3,13 e 3,16-17. Lá perceberá porque deve continuar sereno e continuar a gravar rock religioso!

Tenho apenas dois cds de Rock and Roll, um deles do U2 e outro de Rick Wakeman. Mas já ouvi muitos. E tenho ouvido os da Codimuc. Não toco e não canto, mas ouço e presto atenção nos jovens que os cantam. Também não toco nem canto tango, samba, salsa, merengue, e pelo menos cinqüenta gêneros de música, mas, quando alguém as toca, se me despertar a atenção eu ouço. Não gosto de algumas letras, nem de alguns arranjos e melodias, mas ouço. Da musica de câmera, à opera, passando pelos mais diversos estilos, acho que posso aprender alguma coisa. E aprendo.

Tenho ouvido, desde meu tempo de seminário, que o rock é musica demoníaca, porque faz mal a quem o canta e ouve. Leva ao pecado. Mas já vi gente de vida belíssima cantando e ouvindo rock. Conseguiram ser tão bons e tão santos como os que só ouvem gregoriano, Bach ou Debussy. E já vi pessoas cruéis, mal humoradas e violentas gostarem de musica sacra e hinos de igreja. Aos sessenta anos de vida, com milhares de viagens, a gente vê de tudo.

Culparemos a música de Wagner, a de Bach, a de Mozart porque alguns assassinos a tocaram? Culparemos a canção suave, cantada nas assembléias do pastor Jim Jones que, insatisfeito com as trevas do mundo que a eles se opunha, optou por envenenar todos os seus fiéis em l968? Como explicar os suicídios coletivos de inúmeros grupos religiosos na França, nos Estados Unidos, nas Guianas, na Rússia, onde se tocava música religiosa suave nos cultos e onde ninguém ouvia rock?

É verdade que alguns grupos de rock têm comportamento errado, usam drogas, falam de satã na mídia e em suas letras até o invocam. Mas é justo dizer que os outros 90% de grupos que tocam, cantam e gritam rock são todos servidores do demônio? Pode não ser música litúrgica; pode não dar a mensagem com a mesma serenidade que outros gêneros musicais; pode até não servir para determinados encontros pastorais, mas daí a dizer que é musica inspirada pelo demônio vai enorme distância.

Mal por mal, outras musicas suaves ou até melodiosas também serviram para levar muita gente ao pecado e à violência. O Terceiro Reich de Hitler não tocava rock, mas aquelas marchas e letras levaram muita gente a idolatrar a Alemanha acima de tudo . (Deutchland über alles). Cantavam que o futuro lhes pertencia por direito , arianos que eram. Hoje há cantores religiosos dizendo que são vencedores e que Jesus lhes dará a vitória e o poder. As letras dizem claramente que eles são mais eleitos, mais fiéis e melhores do que os outros. Já viu alguns textos deles?

Faço parte dos padres que não permitem qualquer música de rock numa missa. Mas, se for uma grande festa de multidão e, num som possante, num ritmo marcial e ensurdecedor de cem instrumentos, alguém tocar um soleníssimo Te Deum para toda aquela multidão, aplaudirei aquela música poderosa. Os salmos mandam fazê-lo! No Templo se tocava musica fortíssima. Trombetas, clarins, tambores, mil vozes… Imagine o barulho a reboar nas paredes do templo!

Se for um rock melodioso – e existe isso – aceitarei aquela guitarra estridente e aqueles sons eletrônicos em altíssima proclamação de amor a Deus. Tudo tem hora e lugar. Dependeria da festa, das palavras e do sim ou não do bispo. Já fiquei quase surdo diante do “Alelluia de Händel” tocado numa praça em Great Barrington, Massachussets, USA. Foi poderoso e foi bonito. O heavy rock não faria som maior. Achei de bom tamanho, Deus merecia aquele Aleluia, tocado com todo o poder por mais de 500 instrumentistas e cantores. Não achei que fosse do demônio, embora meus ouvidos quase estourassem. Foi grandioso!

Não acho, nem jamais achei que bandas toquem música do céu ou do inferno. Talvez toquem de maneira celestial ou infernal, mas é ousadia classificá-las como de Deus ou do diabo. Até duvido que no inferno se toque alguma canção. Quanto a uma canção ser do céu, acho que, se ela não levar ao pecado, já é um bom indício. Mas aí , outra vez, há musicas religiosas e músicas profanas sendo usadas para fins ilícitos. O problema é do cantor, mais do que da canção.

Gostaria de pensar que meus 40 anos compondo e pesquisando, e minhas mais de 3 mil músicas me dão o direito de correr em defesa dos meninos que gostam de rock. Se outros têm algo a dizer, acho que eu também tenho. Eu também tenho mãos sacerdotais. Em nenhum dogma católico está escrito que há musicas do céu e músicas do inferno, ou que elas levam alguém para lá. Então não há como falar de maneira dogmática. Música é como estrada. Por melhor que ela seja, se a gente não souber ir, ela não leva. Por pior que seja, se a gente souber ir, acaba chegando. Maior do que a música é o cantor.

Melodias não decidem; pessoas decidem! Como música é linguagem e jeito de expressar um sentimento, tento entender os que cantam chorando, rindo, murmurando, suspirando ou gritando. Não está escrito em nenhum lugar da Bíblia que gritar é anti-religioso. A bíblia até manda gritar! Os salmos mandam elevar a voz e gritar de alegria ( Sl 20,5; 33,3). Um deles manda tocar com maestria uma nova canção aos gritos de alegria. O rock religioso faz isso! Esses meninos tocam com talento impressionante e gritam de alegria. Faz parte do jeito deles!

Não sendo na liturgia, posto que os liturgistas têm sérias restrições ao rock nas celebrações, e, se as danças não provocarem os baixos instintos, pode-se trazer o rock religioso para os encontros de jovens. Porque não? Afinal há muitas linguagens musicais. Se há tanta gente falando em línguas e sem intérpretes, em franca desobediência a Paulo na 1 Corintios e ao Documento 53 da CNBB, porque os jovens não podem cantar seu rock que é até mais fácil de entender, ainda que seja barulhento? Se irmãos renovados podem até gritar forte em línguas porque o espírito os enche de emoção, porque outros não podem cantar rock, que é também um tipo de linguagem forte? Porque o som de uns é do céu e o de outros é do demônio? Onde está isso na bíblia ou nos documentos da Igreja?

Entendo os que condenam os grupos que se apresentam como porta-vozes de satanás. Mas não aceito os que acusam todos os grupos de rock como gente sem espiritualidade ou sem conteúdo. Alguns fazem mais pelos pobres do que muitos grupos de canto santo e suave. Que sejam denunciados os que exageram, mas não que se exagere na acusação a todos. Há excelentes meninos e meninas cantando rock, como os há cantando musica suave de louvor ou de exortação socio-política, baseados nos documentos sociais da Igreja. É apenas mais um estilo. Querer lançar sobre o rock o estigma de música do demônio é exagerar na dose, a menos que se acusem as marchas militares do mesmo pecado, porque muitas delas levavam á guerra!

Lamento pelos jovens que ficam confusos ao ouvir falar de cd’s tocados de trás para frente, de palavras satânicas ocultas em todas as canções de rock. Lembro-me de um desses piedosíssimos irmãos de outra igreja, que tentou mostrar que minhas canções Maria de Nazaré e Um Certo Galileu, tocadas de trás para frente continham a frase: Jesus é satã. Achei graça. Pequei uma música da igreja dele, mandei um técnico tocar de trás pra frente e achei três palavrões. Pelo que sei, tudo o que é invertido pode trazer distorções.

Fui ler outra vez a Sacrossanctum Concilium do Vaticano II sobre a sagrada liturgia, números 112 a 121 e entre as sábias normas de como devem ser as canções litúrgicas, não vi nenhuma condenação tão severa quanto essas que se ouve contra o rock dos nossos jovens. Li também outros documentos e nada percebi de tão peremptório contra o rock como as condenações que alguns irmãos andam exarando. O rock tem seus limites e defeitos, mas se nenhum documento oficial o declarou do demônio, então fiquemos no equilíbrio. Não ser recomendável para as missas é uma coisa, ser instrumento do demônio é outra.

Não sei a que serve querer impedir que nossos jovens gostem de samba, rock, seresta, pagode ou músicas aparentemente menos religiosas, mas com boas letras. Quando Paulo mandou os fiéis cantarem salmos, hinos e cantos espirituais, não especificou o tipo de ritmo, batida, ou melodia (Cl 3,16). Nem disse que instrumentos se deveria usar. Só disse que, qualquer coisa que fizessem, fosse feita em espírito de gratidão e em nome de Jesus.

Eu achei meu tipo de melodias para ensinar a louvar. Valsas, sambas, baladas, country, toada mineira, sinfonia, duetos, canto gregoriano, ajudaram muita gente a repensar sua fé e a sua vocação. Algumas são cantáveis na liturgia, outras não, mas têm o seu lugar. Acho normal que jovens que amam o Senhor também queiram se expressar cantando rock, se dele gostam. Só alerto contra quando suas letras não são catequéticas, ou quando a melodia não se presta para a missa, porque mais distrai do que concentra.

Tenho pedido a alguns pregadores mais compreensão para com nossos jovens. Já é duro para eles sobreviver cantando. Agora precisam enfrentar ainda essas condenações, como se, ao cantarem, estivessem espalhando pecado na Igreja! Eles precisam melhorar suas letras e melodias, mas eu também. Todo mundo!

Os especialistas em liturgia estão com a razão! Nossas canções nem sempre respeitam o propósito das celebrações. Serve para qualquer santo de qualquer movimento! Não sou fundador de movimentos mas já movimentei e movimento milhões de pessoas. Acho que também mereço ser ouvido!

Músicos precisam se reciclar e ler mais; pregadores também! E quem faz rádio e televisão precisa aprimorar os seus programas. Então, ajudemo-nos mutuamente, ao invés de ver o demônio onde ele certamente não está. No dia em que me provarem que anjos só tocam suaves harpas, suaves cítaras, violões levemente dedilhados e flautas super doces diante do Senhor, mudarei de opinião. Não imagino que cantem rock, mas também não está dito que cantam valsas ou canções parecidas com as nossas. Como é a música dos anjos?
Alguém foi lá e ouviu? Então como podemos dizer que a nossa música é dos anjos e a deles não é?
Por isso e mais ainda, Eraldo, continue o seu belo trabalho. Não se deixe abater. Você está evangelizando um tipo de jovem que jamais chegaria perto de uma igreja sem a sua ajuda. E quando você tocava rock, você já era de Cristo. Se quiser tocar na minha frente, ouvirei com prazer, porque sei quem você é e como você ama o Senhor Jesus! Se outros jovens andam exagerando, não é justo que os seus paguem o preço do ostracismo.

Se 40 anos de música nas costas servem, você tem minha bênção e meu apoio! Não deve ser fácil fundar comunidades de jovens bons e santos, mas também não é fácil ensinar a pensar, a ler mais, a cantar, a defender o povo sofrido e a louvar o Senhor cantando. Não pare!

Pe. Zezinho SCJ

Texto extraído: MCPRCristo

As imagens foram retiradas da internet e outras são pertencentes ao Rodrigo Foggiato

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4 opiniões sobre “Carta de um Padre ao Rockeiro Católico

  1. Deus seja louvado pelas palavras, e pela benção, que foi dada no seu sacerdócio Padre Zezinho. Saiba que as suas músicas, também é reverência para os jovens, principalmente os jovens de Espírito. Eu tenho 42 anos, escuto e já escutei vários estilo de músicas, e também penso dessa forma, a liturgia têm que ser respeitada nas missas, mas a música é sim, dom de Deus e tem que ser usada para o seu favor, seja ela nas letras, nas melodias, mas principalmente testemunhada, em atitudes Cristã.

  2. Sábias palavras Pe Zezinho, são verdadeiras e sinto em meu coração unção nelas. Eu gosto muito da Banda IAHWEH com seu rock católico, são lindas as letras e profundamente marcantes e com poder de conversão… PARABÉNS

  3. padre Zezinho!!!!! Sensacional sua exposição de ideias!!!! Deus o abençoe.

  4. Concordo plenamente com o Padre. Eu também gosto da boa música, independente do estilo, basta ter letra capaz de trasmitir valores e sentimentos. Curto muito Rosa de Saron, Iahveh e amei o novo cd da Ir. Kelly Patricia com estilo pop rock. O mundo mudou, a juventude do passado não é igual a de hoje…
    As irmãs mais antigas contam que na época delas o único instrumento que se tocava na igreja era o órgão. Tocar violão era coisa de outro mundo. Hoje podemos perceber varios instrumentos que animam e ajudam a rezar. Ouço músicas lindas com letras profundas, melodias belissimas e um maravilhoso solo de guitarra.
    A letra da Música: Jesus Is The Rock do Iahweh me fez refletir uma realidade diferente sobre os instrumentos músicais últilizados mais no Rock.

    “Every blow the lord lays

    On them with His grace

    Will be to the music of drums and guitars,

    As He fights them,

    He fights in battle

    With the blows of his arm”

    Tradução:

    Cada sopro que o Senhor lançar

    Sobre eles com a Sua Graça

    Será em som de bateria e guitarras.

    Enquanto os combate,

    Ele batalha

    Com a inspiração de seu exército.
    Parabéns Padre Zezinho. Gostei muito das suas palavras.

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